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Blog de AlGo

Por Alexandra Gomes

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Por Alexandra Gomes

13
Nov16

O meu avô faria hoje 100 anos

Há 24 anos que já não está connosco, mas é tantas vezes recordado que parece que ainda vive.

 

Lembro-me do avô Morais como um homem inteligente, moderno para o seu tempo, vaidoso, forreta e divertido.

Dele, toda a família herdou o nariz e o amor pelo Benfica.

 

Lembro-me de o ver chegar a casa da feira, à hora de almoço, cansado mas feliz, porque tinha feito boas vendas. De fazer os trabalhos de casa na sua companhia, enquanto ele lia o jornal. De depois o ajudar a separar as moedas e a agrupar os pensos que vendia em molhinhos de 10, colados com fita cola. Ajudava-o a cortar os metros de elástico, com mais um bocadinho do que a marca que tinha feito na mesa, imagino que para desespero da minha avó.

Eu era aquela que levava sempre o elástico para saltar na escola, feliz porque não precisava de o comprar: "O meu avô vende, e dá-me".

Lembro-me quando bebia um copito a mais e à reclamação da mulher respondia com um "a tua avó é tão chata".

 

Também lembro dos últimos meses. Da alegria quando do hospital o deixavam vir a casa e da tristeza quando percebia que a doença o ia enviar para lá outra vez. Mas em nenhum momento lhe faltou o humor, o amor e o orgulho pela família: a "chata" da mulher, os 3 filhos e as 3 netinhas.

 

Não esquecerei o dia em que me disseram que tinha partido. No diário escrevi "foi o pior dia da minha vida". Dias muito piores viriam, mas eu não o sabia naquele momento. Naquele momento, perder o meu avô Morais foi devastador. No alto dos meus 13 anos, eu sabia que o patriarca dos Morais ia fazer muita falta enquanto houvesse um Morais que o recordasse.

 

O que ele nos deixou, faz com que escreva estas letras com lágrimas, mas sei que é amor e não dor, porque sorrio quando sinto o cheiro de água ardente, que ele tanto gostava do pingo no café. Quando o Benfica ganha e penso: "O Morais é que ia adorar ver isto". Quando ouço a voz do meu tio que é igual à dele. Quando vejo os "tiques" e a forretice herdadas pela minha tia. Quando o revejo no sorriso, na bondade e no jeito com crianças da minha mãe.

 

Caramba, como tenho saudades dele.