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Blog de AlGo

Por Mena Gomes

Blog de AlGo

Por Mena Gomes

31
Jan20

Desafio da escrita dos Pássaros 2 #1

"Acho que a coisa não vai correr bem, aquela doida nã deve 'tar boa da cabeça, isto nã pode fazer bem ao cabelo." 

A miopia da Constança não a deixa ver as letras pequenitas do rótulo do frasco da compota de abobora com amêndoa que a Rosa lhe vendeu... mas vai de lavar a cabeça com Linic, que tem andado com caspa, 2 em 1, que não tem paciência para amaciadores. Passa por água e vai de encher o cabelo de compota... Prende o cabelo com uma mola, enrola-se numa toalha e vai para a cozinha.

Faz uma torrada, com a outra compota de abóbora que comprou e liga à Rosa.

- Tá!!

- Oh Rosa, estou a usar a máscara capilar que m'indicaste. Cheira bem e sabe melhor.

- Então mas só agora é que experimentas?

- Olha lá o Ti Firmino já mandou vir as capsulas de café que te falei?

- Achas? Por vontade dele só vendia café de filtro e Mokambo. Cada vez está mais ranzinza.

- Mas ele nem é mau home, só que prontes, é doutros tempos…

- É muito bom quando não está cá. Estou farta dele e disto tudo.

- Ai melher, isto d'início coise, mas agora está a dar uma comicha...

- Coça. 

- Ai Rosa, está a comichar muito, melher. AI JESUS!! Estou cos cabelos todos colados, acude-me!!

- Vai já para o chuveiro e lava a cabeça pah!

- Então mas assim vai passar o efeito!

- Deixa-te de parvoíces, vai lavar o cabelo. Eu já aí passo.

Constança foi para o chuveiro outra vez. Sacana da compota tinha-se transformado numa pasta nhequenta que não queria descolar e a rapariga já desesperava, mas com água bem quentinha e muita paciência lá conseguiu derreter o doce e já secava o cabelo com a toalha quando a Rosa lhe bateu à porta.

- Olha Rosa, nunca mais. Estava a ver que ficava careca. Mas ao menos agora está desembaraçado, seca-me lá o cabelo. Aproveito e esticas-mo.

- Olha, podíamos ir almoçar à Glória outra vez, ela diz que tem umas coisas da Matilde para nos contar.

Enquanto esticava o cabelo à amiga, Rosa via que que os cabelos ruivos de Constança brilhavam como nunca.

- Oh! Constança, olha que estás cum cabelo bem bonito! Estou aqui a pensar que…

- Nem penses!! Pareces a Caracol, para com ideias.

 

Tema: Acho que a coisa não vai correr bem
Desafio de Escrita dos Pássaros

17
Jan20

Desafio da escrita dos Pássaros #Reflexão

Ainda não tinha feito a reflexão do desafio porque queria ler tudo antes de o fazer. Mas ainda não consegui ler tudo (mas vou ler, prometo) e acho que hoje é o dia certo para a reflexão.

Foi um gosto participar nesta empreitada.

Ao início parecia que para mim era impossível participar de uma forma que não me envergonhasse num desafio de escrita criativa, foi com surpresa que fui vendo que conseguia desenvolver os temas em mais do que três palavras e em vez de me envergonhar, tenho até bastante orgulho de alguns textos, modéstia à parte. 

Mas não foi isso o melhor do desafio.

Bom foi ter como companhia, para além dos pássaros da minha vida, outros que se juntaram a esta brincadeira. Foi bom entrar no ninho de cada um, alguns que eu nem conhecia, ver como escrevem, como são... Cada forma de dar a volta ao tema, cada comentário trocado, cada momento foi maravilhoso.

Em vez de "problemas, só problemas" (foi assim que nasceu o tema 1) este desafio só me trouxe coisas boas. 

Obrigada companheiros de viagem.

Aos que começaram e ficaram a meio, aos que conseguiram chegar ao fim mas ficam por aqui, aos que estiveram o tempo todo e vão à segunda volta:

É um prazer voar convosco.

10
Jan20

Desafio da escrita dos Pássaros #17

Procuro a luz porque quero ser vista, porque quero mostrar o que sou, o que faço, o que quero que os outros vejam, mas refugio-me na sombra que esconde e protege.

O esplendor da ribalta mascara a lágrima que tem pouco de emoção e tanto de dor.
O segredo do anonimato esconde a lágrima que tem tanto de emoção como de dor.

O calor do estrelato e a agonia da solidão a conviver no mais fundo e frio da minha alma. O brilho ofuscante da ribalta, o gostarem de mim só porque dou, um relâmpago de fama que não me alimenta o espírito.

Encho de bens a vida com coisas que não me fazem bem.
Fico vazia de mim, sem aquilo que preciso para ser eu.

Só sozinha, na escuridão que não tem sombras, é agradável estar.

Só aí sou mais. Quando sou só, não de sozinha, mas de simplesmente ser.

Luz e sombra, não opostos, são lados da mesma moeda.

Tema: Luz e Sombra
Desafio de Escrita dos Pássaros

03
Jan20

Desafio de Escrita dos Pássaros #16

Eu ainda não entendi o que é para escrever neste tema, como esperam que perceba o que é ser adulto?

 

Em criança, olhava um tanto deslumbrada para os adultos. Nunca tive pressa de o ser, mas achava que aquelas vidas eram mais interessantes do que a minha e tentava imita-los nas longas tardes em que fazia as Barbies exasperarem-se com o trabalho, os filhos nas escolas e as casas para arrumar.

Padeceram um cadinho as senhoras Mattel. 

 

Os adultos têm que trabalhar, pagar impostos, aturar pessoas chatas... e eu não tenho paciência para nada disso. 

Às vezes sinto que estou velha, mas adulta nunca me senti e nem sei se quero. 
 
Os meus olhos continuam a brilhar quando vejo bolinhas de sabão, continuo a gritar quando vejo uma aranha, acredito no Pai Natal...

A única coisa boa de ser adulto é que se pode beber como gente grande.

Os adultos normais, eu não, que sou fraquinha.

 

Tema: Sobre a vida adulta. Ainda não entendi o que é para fazer.
Desafio de Escrita dos Pássaros

20
Dez19

Desafio da escrita dos Pássaros #15

"1275... já recebi mil duzentas e setenta e cinco pessoas e não há um, unzinho que sirva para substituir o velho. Sacana do gordo tinha que se reformar agora?!" Rudolfo perdido nos seus pensamentos passeava de cá para lá na sala de reuniões. 

- Dona Rena Maria. Já chegou mais algum curriculum?

- Não dr. Rudolfo, só cartas com pedidos…

- O velh… O Nicolau não mudou de ideias?

- Não dr. Ainda ontem vi no Insta que continua nas Maldivas.

- Já mandei o Renato fazer-lhe uma oferta generosa, já lhe garanti que a Rena Patrícia lhe fica a dar assistência…

 - Rudolfo, dr. Rudolfo... chegou mais um curriculum.

- De certeza que não é um email de um puto ranhoso a pedir prendas?

- Não, é um Europass mesmo

- Nem quero ler, liga e manda vir o mais rápido possível.

No dia seguinte, Rudolfo aguardava ansioso por aquela que esperava ser a última entrevista. Não podia demonstrar que estava nervoso, afinal era ele o entrevistador, por isso sentou-se com vários papeis à frente e recebeu o candidato sem sequer o olhar.

- Sente-se, não tenho muito tempo.

- Boa tarde, sr...

- Rudolfo, mas isso não interessa. Sabe as funções a que se candidata?

- Sim... na verdade já fiz este serviço há muit....

- Isto não é para por umas barbas de algodão e ir passear para o shopping. É ser realmente o Pai Natal.

- Posso pintar as barbas e penso que até ao dia consigo ganhar barriga.

- Sim, vejo que é jovem e elegante… faça para essa barriga crescer.

- Mas estou contratado?

- Dá-se bem com trabalho noturno, viagens prolongadas, atender criancinhas...

- Sim, na verdade eu at…

Rudolfo não deixava o candidato falar e ainda nem o olhou. Queria tanto encontrar alguém que nem queria ver defeitos.

- Tem sentido de orientação?

- Sim, eu conheço bem o Mundo e tudo o que nele existe

Rudolfo olhou finalmente o seu entrevistado e… nem queria acreditar.

- Jesus?

- Sim, sou Eu, Jesus de Nazaré.

- Mas…

- Há muitos anos, antes da Coca Cola, Eu é que distribuía os presentes na noite de Natal. As crianças deixavam o sapatinho na chaminé e eu deixava lá as prendas. Fui trocado pelo velho gordo das barbas, mas estou disposto a mostrar que trabalho muito melhor do que ele.

- Contratado.

 

Tema: O Pai Natal decidiu reformar-se e as entrevistas começam esta semana.
Descreve uma dessas entrevistas na perspetiva do recrutador de recursos humanos:
A Rena Rudolfo.

Desafio de Escrita dos Pássaros

13
Dez19

Desafio da escrita dos Pássaros #14

O relógio toca todos os dias às 7 da manhã.
Não nasci para isto.
 
Há quem diga que o dia devia ter mais do que 24 horas, eu concordo, mas só na parte da noite, aquela noite em que se está mesmo a dormir,  mais 4 ou 5 horitas era o ideal.
 
 
Levanto-me, preparo-me e vou trabalhar.
Não nasci para isto.
 
Há quem diga que adora trabalhar, eu não, não o escondo. Nem é o trabalho em si, que não adoro mas faz-se, é os horários, os prazos, os chefes, alguns colegas... 
 
 
Em casa também há trabalho a fazer.
Não nasci para isto.
 
Gosto de cozinhar, até consigo passar a ferro sem sacrifício, mas o resto... Aspirar, lavar, limpar pó, tratar da louça, da roupa... 
 
 
A vida tem muitas coisas aborrecidas
Não nasci para isto.
 
Ele é impostos, obrigações, deveres... até socializar com algumas pessoas é um custo.
Depois há imensas coisas más a acontecer por todo o lado e as menos más são poucas. Boas acontecem algumas, mas não chegam para compensar o mal das outras.
 
 
Podia continuar aqui a chorar a minha vida desgraçada, mas...
Não nasci para isto.
 
Prefiro reter só o lado bom, e se tenho que conviver com o mal, não lhe permito que ocupe mais tempo do que o estritamente necessário.
 
 
 
Declaração de interesses.
 Almas aladas mal intencionados dirão que a culpa deste tema é minha, mas eu somente lamentava a minha sorte por me ter metido neste desafio com o desabafo "Eu não nasci para isto", quando alguém soltou um "olha, isso é um bom tema". 
E pronto, cá estamos.

 

Tema: Não nasci para isto
Desafio de Escrita dos Pássaros

06
Dez19

Desafio da escrita dos Pássaros #13

O tema não é boa ideia.
Ai! Não consigo, não vou ser capaz.
Não me meto na trama alheia,
Seja filme de guerra ou de paz.

Deixar a Carrie1 num'aldeia?
Matar a Rose2 salvar o rapaz?
O Náufrago3 pra sempre n’areia?
Talvez uma Fiona4 mais audaz?

Cumprir regras está obsoleto.
Fiz uma birra, zanguei-me, amuei.
Mas as frases uni em quarteto... 

Sílabas, métrica... até rimei!! 
Oh! Consegui fazer um Soneto!!
E assim com batota me safei.


1O Sexo e a Cidade
2Titanic
3O Náufrago
4Shrek

Tema: Reescreve o final de um filme
Desafio de Escrita dos Pássaros

29
Nov19

Desafio da escrita dos Pássaros #12

Já passa das 7 da manhã quando se ouve o primeiro pio.

- Bom dia!

Pássaro 1 já vai no comboio, ainda a dormir, mas já disposto a desejar um dia feliz à passarada.

Pássaro 2 é o primeiro a responder, já toma o seu pequeno almoço habitual e antecipa que terá 569433425 emails para ler.

Perto das 8 Pássaro 3 chega e anuncia que está a fazer o pequeno almoço, já limpou o pó, tirou roupa da máquina, estendeu, fez outra máquina de roupa, arrumou a louça do jantar, lavou as escadas, desta vez não caiu, assou batatas doces e temperou a carne para grelhar ao jantar, podou o limoeiro, foi aos ovos, aspirou a sala, pôs a louça na máquina e, portanto, está quase pronto para ir trabalhar.

Pássaro 4 e 5 não têm hora certa. Por norma já estão no trabalho quando dão o primeiro pio. Vão opinando, contando um pouco da vida. O número 4 é mais como eu, diz o que tem a dizer sem medir muito as palavras, o número 5 é ponderada, com uma visão assertiva sobre as coisas. Adorava ser assim mas quando dou por mim, estou a dar duas caralhadas.

Também sem hora marcada, Pássaro 6 chega, pia bom dia e pia: “atualizem-me por favor”.

Como é sexta feira, Pássaro 7 chega já passa das 10, em dias bons, nos melhores, bem depois disso. “Só 759 mensagens? Fraquitos”. Junta-se ao pássaro 3 para, sobretudo, moerem a cabeça ao 2 e cansarem a beleza do 1.

Pássaros 8 e 9 não têm vagar para nos aturar. Não os censuro. Volta e meia aparecem, piam qualquer coisa e estão sempre que é preciso e isso é o mais importante.

Uma publicação gira para se partilhar, o uma novidade da gaiola de cada um, tudo pára e se finge de morto quando alguém pia: “tive uma ideia!” Mas rapidamente outro alguém diz que sim e leva tudo de arrasto.

Dá-se pela ausência de um pássaro, percebe-se nas entrelinhas se algo não está bem. Se a cena é boa para um, é boa para todos. Se é má para um, é má para todos mas depois do mimo, há que agitar a vida e pelo menos ali, os pássaros sabem que será difícil não conseguirem um sorriso. O mais certo é a gargalhada mesmo.

Os “pios” não param até à noite, porque estes pássaros não se calam e ainda bem, porque eu gosto muito deles.

Tema: "Aqueles pássaros não se calam"

Desafio de Escrita dos Pássaros

15
Nov19

Desafio da escrita dos Pássaros #10

Vi-o na mesa mais ao canto a fazer rodar o copo entre os dedos. Já olhou para o relógio duas vezes. Está impaciente. Mando uma mensagem só para confirmar:

- Já chegaste?

Vejo-o olhar para o telemóvel e não espero a resposta. Era mesmo ele.

Na fotografia no perfil do TINDER parecia mais bonito.

- Boa noite.

Levantou os olhos para mim e abriu um sorriso que… porra!! Afinal é mesmo bonito.

- Bebes alguma coisa?

A conversa demorou três horas e quando as luzes do bar baixaram, sinal de que nos queriam fora dali, parecia que já o conhecia há anos. Desde sempre, talvez.

Já na rua, peguei no telemóvel e acedi à UBER…

- Deixa-me levar-te a casa.

Hesitei.

- Vá lá. Sei que não tens como o saber, mas sou um cavalheiro. Levo-te a casa, só. Prometo.

Mas promete porquê? Acaso acha que é só ele que pode ter vontades? O meu desejo agora era embrulhar-me nele até ao nascer do sol.

Cedi.

Abriu a porta do carro e antes que conseguisse entrar roubou-me um beijo. Senti-me corar.

- Não resisti. Mas não acontecerá mais nada que não queiras.

Entrou no carro e antes mesmo de conseguir fechar a porta lancei-me nos seus braços num sôfrego e quente beijo. Envolveu-me nos seus braços e o que se seguiu só aumentou o meu desejo de o ter. As mãos, fortes e determinadas, percorriam o meu corpo, tentando em alguns momentos afastar a roupa que tapava a pele que queimava de desejo. A boca dele na minha tirava-me o ar, mas aqueles beijos pareciam ser tudo o que precisava para “viver”.

- Não! Quase gritei.

- Como? Sobressaltou-se.

- Aqui não.

- Posso levar-te para outro lugar? Confia em mim.

Deixei-me ir. Mais de meia hora de caminho em silêncio. Algumas vezes a sua mão procurou a minha. Ia receosa, mas ao mesmo tempo com uma vontade de viver o desconhecido como nunca sentira. Parou o carro numa rua de vivendas luxuosas.

- Já chegamos?

- Já chegamos? A viagem ainda agora começou.

Vendou-me os olhos e fez-me entrar na casa.

Não consigo descrever o quanto os nossos corpos se entrelaçaram, quantas vezes entrou em mim e como me fez chegar e chegou…

Acordei já o sol inundava o quarto. Havia um papel na almofada dele.

“Quando saíres bate a porta. Talvez um dia nos voltemos a encontrar. Beijos”.

 

Tema: "Já chegamos? Já chegamos?"

Desafio de Escrita dos Pássaros